terça-feira, 26 de abril de 2011

RDP Internacional - o fim?

Subitamente, em Abril, a Lusa noticiava que a RTP pretende "suspender" as emissões em Ondas Curtas.

Uma das pessoas que teve a coragem de levantar a voz, em defesa da continuação deste serviço, foi a de Carlos Gonçalves, nome internacionalmente reconhecido, até pela sua colaboração com várias publicações técnicas, referentes à radiodifusão, nas suas variadas vertentes.

Carlos Gonçalves teve a amabilidade de me enviar uma cópia da carta enviada à Lusa e  RTP, entre outras organizações, explanando ideias, tecendo comentários técnicos de elevada relevância e levantando questões que necessitam de resposta urgente.

Aqui se reproduz o texto integral da mesma:



"A RDPi em Onda Curta: mera suspensão - ou o fim puro e simples do CEU-CEOC(*)?

*) Centro Emissor de Onda Curta, São Gabriel - simplesmente o centro
emissor mais importante do País, mas cuja existência é desconhecida
da esmagadora maioria dos cidadãos, e que parece continuar a ser
um fardo incómodo para a RDP, agora RTP.



(Até '74/'75, este centro foi designado por CEU-Centro Emissor Ultramarino... mas até

a mudança de nome denota os tiques pós '74, quiçá para passar a mensagem errónea

de que o Centro só surgiu após aqueles anos... como a ponte)

O motivo deste escrito nasceu com o noticiado em 13 ABR '11, pela Agência LUSA:


"A RTP pediu ao Governo a "suspensão temporária" das emissões da RDP
Internacional em Onda Curta após uma avaliação devido ao reduzido número de
ouvintes e aos custos acrescidos, disse à Lusa fonte oficial da empresa.
"A análise teve por base vários factores: o cada vez menor número de
ouvintes servidos por esta plataforma de distribuição, os custos acrescidos
dos últimos anos e o aumento das necessidades de investimento", afirmou a
mesma fonte, acrescentando que "as estações de Onda Curta estão velhas e a
precisar de substituição".

Por outro lado, prosseguiu, "as emissões da RDP Internacional podem ser
asseguradas alternativamente através de satélite, cabo ou DTH e Internet,
com menores custos e maior qualidade, servindo a esmagadora maioria" dos
ouvintes da RDP Internacional.

"Por estas razões, a RTP pediu à tutela a suspensão temporária das emissões
da RDP Internacional em Onda Curta, para posterior avaliação das
consequências da decisão", referiu a fonte oficial da RTP, ressalvando que a
suspensão não tem ainda data marcada "por serem necessários procedimentos de
consulta prévia" à Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom).

"Só no final do prazo da suspensão provisória será feita uma avaliação das
consequências da mesma e tomada uma decisão definitiva", adiantou, lembrando
que "vários operadores internacionais têm optado" nos últimos anos "pelo fim
ou diminuição das emissões de Onda Curta".

Itália, Holanda, Inglaterra e Alemanha são países que tomaram medidas nesse
sentido, apontou a fonte à Lusa. Em rádio, a Onda Curta corresponde à
transmissão que cobre uma distância mais longa.

(Lusa)"
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Comentário.


Com toda a franqueza, até estranhei que tivesse havido um A11 - que já acusa
cortes, comparativamente com os anteriores horários -, pelo que nem é de
ficarmos surpreendidos - infelizmente! - por este recente anúncio do pedido
ao governo, para suspensão das operações em Onda Curta... como se o meio
em causa não pecasse já pelo defeito de não operar 24 h! Não operam 24 h
os meios de distribuição nacionais, independentemente do seu tipo?

Segundo consegui apurar, a razão de um A11 nos moldes em que o conhecemos,
encurtado, ficou a dever-se ùnicamente à pretensão (que eu calculara) de
diminuir despesa através da factura energética: justamente o que eu receara
e que, para ser franco, já esperava há alguns anos. Pelo menos, porém, o
"barco foi-se aguentando", até agora.

Cabe aqui explicar que "A11" significa o horário de Verão, no caso vertente,
do ano de 2011; o anterior, horário de Inverno, foi o B10, e o próximo, na
mudança para a hora de Inverno, será o B11, e assim sucessivamente.

Não sendo minha pretensão imiscuir-me na programação da RDPi, tema
que, aliás, exorbita este Comentário, não posso, contudo, deixar de notar
que, não obstante um A11 mais modesto, a emissora não se coibiu de
reservar segmentos de emissões extra que, quase invariàvelmente, são
destinados a coberturas de relatos de jogos futebolísticos. É triste
constatar a relevância que tal rubrica suscita, a ponto de justificar o
que apelido de "queima supérflua de kW." Aqui, pelos vistos, o
caminho escolhido foi o de não poupar: afirma-se a mediocridade.

Vejamos, temos uma Administração a alegar que "as emissoras de OC estão
velhas e a precisar de substituição", como se o CEOC não tivesse vindo a
sofrer beneficiações de vária índole, desde os emissores, passando pelas
novas antenas e, por último, pela automatização!



Não se entende. Ou talvez só entenda tal argumento uma Administração

que, no fundo, não entende ou não quer entender, e pretende que quem lê a

notícia tão-pouco entenda mais do [pouco] que se argumentou para o pedido

de suspensão que, a realizar-se, esperemos não se transforme até em

supressão imediata, o que tão-pouco causaria estranheza, ou a curto prazo.



Não será, bem antes, uma questão de substituição de administrações, por
serem velhas e precisarem de ser substituídas?

Naturalmente, os espíritos menos avisos tenderão a aceitar a explicação...
até porque talvez tenham sempre conotado a Onda Curta com a rádio do
passado e que convém arredar e deitar para o lixo.

Temos ainda que, a par desta última pretensão, a da suspensão da Onda Curta,
surgiu outra, a da suspensão das emissões em DAB - que em boa verdade nunca
serviu, por um leque de razões. Atrevo-me a dizer que não é a suspensão
a palavra correcta, mas a sua supressão, pura e simples! Aqui, só dou razão
a metade do que se invoca: à RTP, corrija-se a pretensão no que à DAB diz
respeito, suprimindo-a!!!

Nunca fez qq. sentido a afectação de meios para a DAB, desde a sua
instalação à manutenção das emissões. Afinal, que ouvintes haverá, se nem
há receptores, a julgar pela resposta do nosso mercado? Será que a
Administração da RTP não tem consciência de que tem mantido a DAB em
vão, "queimando" fundos inùtilmente? Houve alguma campanha para
atrair os ouvintes? É algo que seja mencionado sempre nos habituais
anúncios de frequências? Nunca dei por tal. Alguém deu?

E quem, da audiência da RTP-rádio, ou outros ouvintes em geral sabe o que é
a DAB? Alguém, por certo, há sempre alguém, mas talvez como o signatário,
que não tem receptor DAB, apenas está informado sobre este meio digital,
que, em grosso modo, é, digamos, como que o equivalente, em rádio, à chamada
TDT-Televisão Digital Terrestre. Dado tratar-se de sinal digital (DAB=digital

audio broadcast), uma só frequência pode transportar vários canais, e assim

sucede com a DAB da RTP.

E por falarmos da RDPi/RTP e da nova tendência da sua Administração,
talvez seja igualmente oportuno tocar em algo que contraria até o que ora
se pretende, ou seja, a RTP dá um passo, melhor, tem alguém que caminha
por si, ao "enveredar " na moderna aventura da rádio digital em O.Curta,
mas pouco falta à notícia para se ler na entrelinhas que esta característica
é até considerada obsoleta, ou perto de merecer tal atributo. No mínimo,
uma flagrante contradição, ou não será? Falo da DRM.

Vejamos esta DRM, http://www.drm.org/, o "Concorde" da nova
era da rádio. Sabe-se o que sucedeu aos vários Concorde.

Ora, sendo a RTP parceira no consórcio criado para promover as emissões

em modo DRM, até seria compreensível (embora não aceitável, como

explicarei) ter-se equipado para tal, mas não, na realidade, a RDPi "emite"

digitalmente através da retransmissora da Pro-Funk, em Sines, que, aliás,

está obrigada a pôr à disposição do EP um determinado número de horas

de emissão por dia, como parte da autorização para operar neste País, o que

vem fazendo desde 1971 ou ' 72.

Abstraindo o facto de a DRM não ter vingado, como o atesta o número
decrescente de "aventuras" estrangeiras neste modo, temos como única
vantagem o benefício que daí colhe a dita Pro-Funk, não a RDPi!, e
convenhamos, é indiferente àquela empresa alemã que o sinal RDPi não
sirva, na prática, para nada, como não serve, pois há que estar munido
de receptor compatível - um paralelismo que poderíamos fàcilmente
estabelecer com a DAB, embora haja, de facto, [raros, e dispendiosos]
receptores que incluem o modo DRM, como também existem rádios
com DAB, é certo, mas...

Explicando, ao emitir em modo digital DRM, a potência dos emissores
é reduzida para menos de metade; em Sines, de 250 kW, passa-se para
menos de 100, tìpicamente, 90 kW. Qualquer leigo percebe que isto
se traduz imediatamente numa diminuição da factura energética, factura
para a Pro-Funk, entenda-se.

A sensação que dá ao menos avisado é a de que a RDPi acompanha
a "modernidade" da DRM pese embora isso signifique ùnicamente
ganho para outrem e resultado nulo, porque será por certo nula a
audiência [europeia] que a RDPi consegue ter ao "emitir" em DRM.

Por tal razão, ainda bem que a RTP não afectou meios para que os
emissores no CEOC pudessem "sair" igualmente em DRM... mas,
então, qual o real motivo de a retransmissão a que a RTP tem
direito, muito embora dela nem necessite, ter passado para DRM,
no caso, apenas, ao sábado e domingo? Felizmente que os restantes

dias ficaram a salvo da "praga" da DRM.

Curioso, ou não será?

Dado mais este pormenor, defendo que faria todo o sentido para o País
que a RTP mantivesse a O.Curta, e até noutros moldes - expandida, com
mais horas diárias, como se, afinal, não houvesse tantos concidadãos
e outros ouvintes espalhados pelo mundo a justificá-lo! - e, para equilíbrio
de custos -, suprimir canais de rádio (a RTP passou a englobar tv + rádio),
como RDP África e outros apenas via internet, mas também de tv, como
RTP África (já há uma RTP Internacional, o equivalente, em tv, do canal
rádio RDPi), e talvez ainda outros, como RTP Memória e RTP N.

Retrocesso? Sim, em parte, mas será lícito aceitar que o País pode manter
uma emissora pública com tantos canais?! Defendo que são um erro crasso,
um esbanjar de fundos, "um gastar, que depois logo se vê",um "logo se vê"
bem patente nas chamadas esferas públicas que, de responsabilidade,
só clamam ter a que no plano político existe: entenda-se, a que os próprios
deram a si mesmos, por razões óbvias, eximindo-se assim a responsabilização
real e a sanções exemplares e, indubitàvelmente, bem merecidas.

Alguém já se atreveu a outros luxos que não estão relacionados com este
tema, num flagrante contraste com deficiências noutros sectores públicos.

Os contribuintes portugueses sabem disso, e bem.

Regresso aos argumentos apresentados pela RTP, que partilham tiques de

outras congéneres, v.g. na Europa.

Eles são as velhas desculpas de quem frequentemente desconhece a realidade
do meio - a Onda Curta - utilizado para chegar, de uma forma simples, aos
vários cantos do globo. Mas há que "dourar a pílula", há que apresentar
razões - por mais hipócritas, ridículas e falaciosas que sejam - para tentar
convencer o público, mas não convém publicitá-las em demasia, mesmo perante
um público-contribuinte que até desconhece a existência da Onda Curta da
RTP, e a sua importância, há muitas décadas, concretamente, desde 1935, ano
em que a Emissora Nacional inaugurou o Centro Emissor Imperial, em
Barcarena, local onde funciona determinado Serviço da ANACOM, mais tarde

(1953), substituído pelo mecionado CEU.

Longe vão já os tempos em que todos os territórios de língua portuguesa,
restantes continentes e até a frota de pesca tinham horas de emissão, tal
como havia o que, em má hora, já a RDP suprimiu: os programas em línguas
estrangeiras, que foram minguando desde meados da década de ' 80, até

serem suprimidos de todo em Março de 1998.

O que agora se invoca por parte da RTP não é mais do que o que temos
assistido por parte de outras congéneres estrangeiras, como a RAI que,
"oficialmente", só apontou as armas à "inutilidade" da Onda Curta..., mas
o que pretendia era cortar a despesa, despesa energética e despesa com o
produto, que no caso italiano se desdobrava em vários serviços: em suma,
uma coisa arrastou a outra, e é mais um país sem uma voz soberana no
exterior. Invoca-se que outras procederam a reduções; sim, mas outras
fizeram-no com o simples propósito de criar e/ou expandir outros
serviços em OC, como sucede com a iguamente mencionada BBC.

Acresce ainda que para as mentes dessas administrações, qualquer ouvinte
tem "facilidade" em escutar via internet ou via satélite, com melhor
qualidade - facto inegável -, mas como se estas duas vias não implicassem
despesa, frequentemente impossibilidade (caso de instalação de antenas
parabólicas), e até ausência de mobilidade por parte de quem escuta. Se
não, como será a recepção no mar, em viagem terrestre, fora de casa?

São esses dois meios, internet e satélite, ou cabo que, por exemplo, a
audiência africana da RDPi utiliza?! Francamente! Ignora a RTP que,
fora da Europa, o sinal por satélite exige recurso de parábolas bem
maiores dos que as usadas em Portugal, e que só por si constituem
uma dificuldade acrescida? Certamente que, no fundo, não ignora, daí

ver-se obrigada a recorrer a argumentos como os que lemos.

Que alternativa mais prática resta, abstraindo o custo inerente, mas
constituindo simltaneamente um meio soberano?

Indubitàvelmente, a Onda Curta e até a Onda Média, a exemplo do
que muitas congéneres praticam!

Tudo depende da distância, e no caso português, com uma comunidade
importante residente no país vizinho que nem pode contar com os meios
empregues na cobertura nacional - mas, curiosamente, tão-pouco pode
socorrer-se capazmente desta Onda Curta! -, seria simplesmente
natural que a RTP pensasse também neles, por um lado, e usasse o meio
para difusão da Língua, por outro, considerando ainda a situação do
crescente interesse pelo Português, em Espanha.

Sucede que as emissões em OC da RTP para a Europa são calculadas para
a Europa Central, pelo que a cobertura a menor distância, nesse mesmo
espectro, implicaria alguns ajustes não impossíveis de realizar, assim
houvesse vontade.

Não colhe, portanto, um argumento apresentado pela própria RDPi, num
programa do Provedor do Ouvinte, que, em 2010, tentou explicar a
"impossibilidade técnica" de cobrir a Península em OC. Retive esse
argumento, que só poderá ser aceite por quem ignora os factos, como recordo
quea sensação que transpareceu foi a de se tentar dar uma resposta
diplomática, pois quem a prestou tem perfeito conhecimento de que a
realidade é distinta.

Cortar na O.Curta para o exterior, deixando este apenas com internet e
satélite (ah, e VHF-FM!, mas convém escutá-la em Díli...), não será então
o mesmo que cortar na cobertura nacional em O.Média e VHF-FM, deixando
o continente, os Açores e a Madeira apenas com acesso aos programas via
satélite e internet... e, enquanto durar, também em DAB?

Alternativamente, por que não manter ùnicamente a DAB, com menor
despesa, e cortar nos restantes dois meios via éter, OMédia e VHF.FM,
que exigem maior afectação de fundos? Seria bizarro, certamente.

À luz de um tal raciocínio, não percebo a razão de a RTP não pretender
suspender ou cortar nesse campo... e, naturalmente, em muitos outros
aspectos da empresa, que certamente os haverá, e com profusão. Se o
fizer também aí, então todos os ouvintes, contribuintes directos ou não,
ficariam em pé de igualdade.



A tutela, de quem depende, em última instância a manutenção desse
meio da RTP, ou até das RTPi e RDPi.

Será esta sensível às necessidades de que quem está no estrangeiro
e pretende, como é seu direito!, e expectável, captar o programa da RDPi
da forma mais simples e directa, abstraindo aqui a qualidade
comparativamente com os outros meios "da moda", internet, satélite,
cabo e (volto a dizer), a tal cobertura VHF-FM em Díli...?

Gostaria de crer que sim, que talvez haja nessas paragens "gentinha" com
alguns conhecimentos e convençam os últimos responsáveis (...) a opor-se,
porém, estou quase certo de que também ela, a tutela, a isso
fechará os olhos, se as outras aparências forem as únicas a prevalecer, se
o que se pretende é cortar, independemente dos critérios. Tenho para mim
que o desfecho será esse, infelizmente.

Mas, enfim, tudo isto nada conta, hoje em dia; o que conta é o continuar
das aparências, do supérfluo, por abundantes supérfluos comandados pelas
rédeas dos que têm governado o País há perto de quatro décadas.
___________________

Os Portugueses fora do território Pátrio não merecem este tratamento, como
não o merece esta Língua que falamos, se a RDPi é, afinal, a única emissora
de referência em Língua Portuguesa! É uma vergonha, pretender suspender
este meio, muito menos suprimi-lo, como temo que possa ser esse o rumo
futuro. Esperemos, apesar de tudo, que se encontre equidade, bom senso e
uma centelha de respeito.
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Carlos Gonçalves,
PORTUGAL."



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